João B. Ventura
LEMBRO-ME DE HÁ UNS ANOS ir a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a cidade do México e, depois, se inclina para Cuernavaca, a cidade que em Debaixo do vulcãodá pelo nome de Quauhnahuac e onde nos habituámos a ver desesperar Malcolm Lowry.
“As muralhas da cidade, que se encontra edificada numa encosta, são altas; as ruas e os becos, tortuosos e arruinados; as ruas, coleantes. Possui uma bela estrada de tipo americano, que vem do norte e acaba por se perder em ruas estreitas, degenerando finalmente num verdadeiro caminho de cabras. Quauhnahuac possui dezoito igrejas e cinquenta e sete bares”.
Lembro-me de errar através de um emaranhado de ruas ensolaradas; de atravessar um jardim decadente sob um céu em chamas; e, respondendo ao chamamento dolente de uma canção de Jorge Negrete vinda de uma jukebox, ter cruzado o umbral sombrio de uma cantina anónima que acabara de abrir as suas portas; E de ali, depois, ter emborcado uns quantos caballitos de tequila destilada do mais puro agave mexicano. E a cantina, tão real como a do romance, talvez fosse El Farolito, cuja fotografia descobri no blogue da Fundação criada em Cuernavaca para recordar o inglês perseguido pelos demónios do mescal. Algo que o próprio Lowry debaixo do vulcão já antes me havia confirmado: “que beleza se poderá comparar à de uma cantina, de manhã, cedinho? (…) pensa em todos os terríveis estabelecimentos, em frente dos quais as pessoas desesperam, impacientes por que se levantem os taipais! Nem as portas do céu, que para mim se abrissem de par em par, me proporcionariam uma alegria tão celestial, tão complexa e tão desesperada como a porta ondulada que se ergue com estrondo, como as gelosias que sobem, admitindo essas almas que vibram com as bebidas, levadas aos lábios com mãos vacilantes. Todo o mistério, toda a esperança, todo o desapontamento, sim, todas as misérias aqui se encontram, para lá dessas portas que se balançam num vaivém”.
Agora que volto a ler o livro e a incandescência permanece, lembro-me de, naquele homem debruçado sobre o tampo de pedra do balcão, “afogando a dor no melhor mescal do México”, parecer-me ter visto o próprio Malcolm Lowry, não sei se por ter eu já ter bebido a mais da conta ou se apenas por estar embriagado pela atmosfera mescalina de El Farolito.
Mas que outra visão poderia eu ter tido ali, naquela cantina debaixo do vulcão, com a garganta incendiada pelo fogo do mesmo agave que nesta dobra da noite vou bebendo enquanto vou sublinhando o nome de todas as bebidas alcoólicas emborcadas pelo cônsul e seus acólitos ao longo das 346 páginas do alucinante romance de Lowry?
“De repente, [vejo] tudo isso: as garrafas de aguardente, de anis, de Xerés, de Highland Queen; (…) garrafas de vinho do Porto, de vinho tinto e branco, de Pernod, e de absinto, garrafas que se esmagavam, que eram atiradas para o lado e caíam, com pancada surda no chão, em parques, debaixo de bancos, de camas, de cadeiras de cinema, escondidas em gavetas nos consulados (…). Garrafas, garrafas, garrafas e copos, copos, copos, de bitter, de Dubonnet, de Falstaff, de uísque de centeio, de Johnny Walker, de Vieux Whisky Blanc Canadien, as dos aperitivos, dos digestivos (…); eram garrafas, garrafas, lindas garrafas de tequila e cabaças, cabaças, milhões de cabaças de belo mescal”.
Neste exercício de economato etílico-literário, imagino-me de novo em Cuernavaca, agora no dia dos mortos, ao crepúsculo, sentado de frente para os vulcões gémeos resplandecentes de neve, na esplanada de Las Mañanitas, bebendo uma coronita bem gelada, essa clara cerveja mexicana que vem numa garrafa transparente e que, às vezes, no verão, também ao crepúsculo, gosto de beber sentado no meu terraço debaixo de um céu que se vai quebrando num esplendor vermelho.
E lá, isto é, agora, aqui, não na esplanada de solitários atravessada por um cortejo de máscaras e disparos mentais que vislumbro na dobra de uma página, volto a sonhar com o México. Um país cujo imaginário transforma os escritores que ousam cruzar os seus admiráveis abismos de festa, alucinação e morte em exploradores de um território literário vertiginoso donde nem sempre regressam incólumes. Como Lowry, o “cônsul da embriaguez e dos vulcões” – como lhe chamou José Agostinho Baptista, o mais mexicano dos poetas portugueses -, em queda sem fim pelos abismos do mescal.
Garanto que não queria continuar a escrever sobre éteres mexicanos para não atribuírem à tequila ou ao mescal os estímulos espirituosos desta crónica etílica que aqui vou destilando. E a prová-lo, a circunstância da garrafa de tequila Herradura que trouxera do México se encontrar ainda cheia com o seu líquido dourado, e a outra, El Diablo, ir a meio.
Mas uma ode de Carlos de Oliveira à tequila e ao mescal – “ó tépida tequila”, “frígido mescal” e uns versos etílicos de José Agostinho Baptista que se deixa ir à “deriva como pedra solta rolando para o vale (…) as verdes folhas do maguey e, decepado, o coração (..,) sangra[ndo] o mescal” – e uma crónica de Juan Villoro com o título “Elocuentes tequilas”, acendem-me o desejo de beber um caballito de tequila.
E a fazer fé no que conta o escritor Juan Villoro, tivesse eu trazido na minha mala mexicana também garrafa de Caballito Serrero, cujo nome é uma declaração de pureza e liberdade etílica face à domesticada Herradura ou à infernal El Diablo, pois os potros selvagens não usam ferraduras e o Diabo assombra, com certeza já a teria bebido toda. Mas não, por muito que eu tivesse procurado, não consegui encontrar esse indómito e fugidio Caballito nas lojas de tequila domesticada nem em Cuernavaca nem na Cidade do México.
É que nisto de bebidas, que não de literatura, embora não abstémio, assemelho-me a um sóbrio. Já de Vila-Matas não se poderá dizer o mesmo, pois como o próprio confessa em Longe de Vera Cruz, “regress[ou] à Cidade do México num comboio carregado de garrafas de tequila e, deixando para trás o bulício de Jalisco, ri[u] e beb[eu] como nunca o fizera, e cant[ou] rancheiras…”
Tanto a recordação da diabólica tequila que bebi debaixo do vulcão, numa cantina decadente, com o “cônsul da embriaguez” Malcolm Lowry, como o inebriante romance veracruziano de Vila-Matas ou a crónica etílica de Villoro que me recordam as irregulares qualidades etéreas da tequila, me incitam, e excitam, agora, para abrir aquela tequila diabólica que guardo na garrafeira à espera de um instante de deslumbramento para ser bebida.
A tequila que, entretanto, fui buscar à garrafeira, e cujo nome, El Diablo, sugere o inferno sincero aos paraísos artificiais, e que, no reverso do rótulo da garrafa, através da transparência dourada do seu “aquário ardente”, inscreve desassombradamente uns versos de Eduardo Hurtado:
“O diabo inventou os sonhos/ a luxúria e a tequila,/ no fundo desta garrafa/ dormem paixões e assombros,/ mil anos de amores inquietantes,/ nuvens sobre os vales/ e outras coisas intranquilas”[1].
Tivesse eu trazido, como Vila-Matas trouxe na sua mala jalisciense, um pequeno revólver negro, agora seria o momento ideal para incendiar a noite cantando rancheras ao mesmo tempo que disparava para o ar amedrontando a vizinhança.
Como não tenho revólver nem sei cantar rancheras, nesta hora que me pertence plenamente, contento-me com ir bebendo com moderação um caballito desta tequila eloquente e lançar sobre os telhados vizinhos os versos do poeta colombiano Álvaro Mutis: “A tequila é uma chama pálida que atravessa as paredes/ e voa sobre os telhados para aliviar o desespero./ (…) Em princípio, a tequila não conhece fronteiras,/ mas há climas que lhe são propícios,/ tal como há horas que lhe pertencem plenamente:/ (…) na mais alta escuridão de dúvidas e perplexidades. É então quando a tequila nos dá a sua lição de consolação, a sua voz infalível e sem reservas”[2] (“Ponderación y signo del tequila”).
Onde guardar, então, as minhas tequilas eloquentes? Na garrafeira ou na biblioteca?
[1] El diablo inventó los sueños / la lujuria y el tequila,/ al fondo de esta botella/ duermen dourada pasiones y asombros,/ mil años de amor punzante,/ las nubes en las cañadas/ y otras cosas intranquilas.
[2] El tequila es una pálida llama que atraviesa los muros / y vuela sobre los tejados como alivio a la desesperanza. / (…) En principio el tequila no conoce fronteras. / Pero hay climas que le son propicios / como hay horas que le pertenecen con sabia plenitud: / en la más alta tiniebla de las dudas y perplejidades. (…) / Es entonces cuando el tequila nos brinda su lección consoladora, / su infalible gozo, su indulgencia sin reservas.

