VENEZA. MURMÚRIOS DE ÁGUA

João B. Ventura

Falta uma cidade de que nunca falas.
Marco Polo baixou a cabeça.
– Veneza – disse o Kan.
Marco sorriu. – E de qual julgavas que eu te
Falava? (…) Sempre que descrevo uma cidade
digo Qualquer coisa de Veneza.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis.

VENEZA TEM O PRIVILÉGIO DE PARECER sempre a mesma e ao mesmo tempo diferente. Porque Veneza é um lugar irreal, melhor dizer surreal, a representação de um sonho antigo que se oferece sem vacilação ao visitante na sua mais exacta metáfora: um labirinto de espelhos. Veneza não muda. O que muda são nossos olhos. E eu que também não mudei na minha essência mais íntima, quatro décadas mais tarde regressei sem vacilação a Veneza, não para caminhar nela como um turista acidental como fizera na primeira vez que lá fui, mas para escutar os murmúrios da água como fez Joseph Brodsky nos 17 invernos em que a visitou e Javier Marías que lá chegou catorze vezes, somando uma estada de nove meses. E fui, ainda, para, depois de ter escutado os murmúrios da água, fazê-los ecoar aqui no papel como num búzio.

Mas talvez o mais prudente fosse eu não ousar escrever sobre Veneza, tantas vezes a cidade foi escrita. E numerosos foram os mestres venezianos que a pintaram. Que poderia, poderei, eu acrescentar – eu que não tenho nem engenho nem arte para o fazer aos jogos luz e  sombra dos quadros de Tintoretto, às figuras e composições alegóricas de Tiepolo, às vedutte[1] de Canaletto e de Guardi?

Se há cidade que padece do excesso de literatura, do delírio de estetas e turistas fetichistas que exaltam a sua beleza, repetindo a obrigação de século após século a consumirem no elogio sem fim até ao grau zero da linguagem, essa cidade é Veneza. “A questão está em saber se Veneza é também responsável pela literatura que lhe é consagrada. Que poderia ela ter feito para a evitar?” questiona Predrag Matvejevitch em A Outra Veneza.

“Não descrevas os lugares onde muitos já passaram, alguém antes de ti o fez melhor”, aconselha-me Matvejevitch recordando o que um sábio lhe dissera no porto de Muggia, perto de Trieste. Ainda assim, com a consciência de que inevitavelmente me deixaria enredar pelo seu canto de sereia, procuraria escapar à “grandiosa e veneranda” “república dos castores” de Goethe; à “pátria ideal” de Gautier; à “Rainha do Adriático” coroada por Proust; à “tão bela e tão feérica” cidade de George Sand; ao “paraíso das cidades” de John Ruskin; à “mais inverosímil cidade do mundo” de Thomas Mann; ao “único sítio onde vale a pena ir para nos perdermos” de Tiziano Scarpa; à “terra de sombras, vapores e água” de Gabriele D’Annunzio; à “cidade metade peixe, metade mulher” de Jean Cocteau.

Deixei-me, então, conduzir por Joseph Brodsky, Javier Marías e Predag Matvejevitch, cujos livros venezianos[2] trouxera na minha mochila para me instruírem na arte de flutuar “num lugar onde apenas deveria haver peixes”, como sonhava Montesquieu. E também para citá-los, a eles e a outros, porque citando-os, umas vezes com aspas e outras sem aspas, sentir-me-ei acompanhado nas callie canais de “uma outra Veneza, real, lúcida, quebradiça como o vidro, inventada no nada das florestas imersas, criada à força, e enfim chegada a este grau de existência que me levara a percorrê-la”, tal como a desejou Rainer Maria Rilke[3].

Ao invés de, como turista fetichista, ir à procura da teatralidade sumptuosa de Veneza ou como turista niilista ir em busca do seu contraponto decadente de cidade-museu onde já pouco resta de vida autóctone, devastada pelo turismo e invadida pela fancaria ”um cosmorama e um bazar danificados”, segundo Henry James, e “metade conto de fadas e metade armadilha para turistas”, segundo Thomas Mann , deslizei como a enguia errante do poema de Eugenio Montale13 em busca da cidade flutuada por Joseph Brodskypara me “perder nas suas vielas e ruas noveladas que nos convidam a decifrá-las, a segui-las até ao fim impalpável, pois geralmente terminam na água”.

Lembro-me que a primeira vez que cheguei a Veneza fora no crepúsculo de um dia de Verão de 1979. Cheguei de comboio na companhia da minha mulher, mochila às costas, vindos de Belgrado, regressando de uma viagem de recém-casados que nos levara com um passe de Inter-rail de Lisboa à Grécia. Fomos não apenas para visitar Veneza, mas também para aí achar a felicidade, tal como no seu tempo Stendhal incitava os seus contemporâneos a fazê-lo.

Regressei numa manhã de Inverno, quarenta anos mais tarde, e logo recordei o filme de Lucchino Visconti, baseado no romance de Thomas Mann, em que a personagem mórbida Gustav von Aschenbach, figura do compositor Gustav Mahler, vai a Veneza para morrer. Assaltou-me o mesmo sobressalto que ao escritor mexicano Sergio Pitol quando ali chegou vindo de Trieste para uma visita de um dia. “Morreria em Veneza”? Ou como Pitol, “renasceria, por acaso, em Veneza?”

Cheguei num domingo de Dezembro seriam umas sete da manhã -, viajando no Freccia Rossa que, em pouco mais de uma hora, galgou, veloz, a distância desde Bolonha, e, passado Mestre, percorreu os três quilómetros e meio da estreita faixa de terra firme que ata a península ao conjunto de ilhas que constituem a cidade. Não tinha a sensação de que tivessem decorrido mais de 40 anos desde a minha última estada, e no entanto era esse o tempo que tinha passado: dois terços da minha vida.

“Veneza percorre-se em não mais de uma hora, a andar bem e sem se ofegar. Mas quase ninguém pode percorrê-la assim, não porque seja difícil e até impossível encontrar uma linha mais ou menos recta sem vacilar cem vezes no trajecto, como, por culpa do que, com pedantismo, poderíamos chamar a sua inacabável fragmentação ideal”, avisa-me Javier Marías que percorreu o seu interior.

Depois de enfiar pés e pernas até quase aos joelhos nos resguardos impermeáveis que me permitiriam caminhar sobre a acqua alta que inunda as zonas baixas da cidade, bastou-me apenas deixar para trás a stazione de Santa Lucia (no meio da chusma de gente apressada que àquela hora da manhã vinha de Mestre e de outras localidades próximas para trabalhar em Veneza e depois regressar a casa ao final do dia), na sua modernidade rectangular de vidro e urbanidade, e logo ver, em frente, a Igreja de San Simeon Piccolo e o Palazzo Emo Diedo, à esquerda, e, ladeando o canal, o telão de fundo feito de silhuetas de cúpulas de zinco das igrejas, o perfil oblíquo dos campanários, a sobreposição dos telhados. E inalar o cheiro a maresia empurrado pela brisa que sopra desde a laguna.
Serpenteando lentamente no vaporetto ao longo do Grande Canal, “la piu bella strada del mondo”, rumo a San Marco, a legendária porta de entrada em Veneza, a sensação era a do viajante que regressava depois de muitos anos de ausência a um lugar onde já fora feliz, e que agora revia na cor do pigmento moído à mão com que a água de Veneza foi pintada durante séculos, paleta de ocre iluminada pela luz, sulcos e ondulações ligeiras provocadas pela passagem de embarcações, grupos de estacas de madeira cravadas no fundo com gaivotas e corvos-marinhos pousados no cimo, ramagens de oleandro emergindo sobre os muros húmidos de jardins secretos.

Invadia-me o sentimento de ter regressado para decifrar o segredo da eterna permanência de Veneza.
Em ambas as margens, com uma fina camada vegetal pintando de verde escuro os muros ao rés da água e escadas afundando-se no canal, camadas de ferrugem pintando os ares metálicos dos pórticos e o gradeamento das janelas, erguiam-se fugidios e sinestésicos os decadentes Palazzi.
O Ca’d’Oro,um dos marcos da arte gótico veneziana, o Ca’Rezzonico, o Palazzo Venier dei Leoni, a Fondaco dei Tedeschi, a Fondaco dei Turchi, sumptuosas fachadas de rendilhado vertical de mármore, capitéis, cornijas, nichos habitados por aves marítimas e pombos. Tudo ainda envolto na nebbia matinal, uma patine difusa de ocre, grená, rosa, amarelo, azul, verde e negro junto à água reflectida pela primeira luz da manhã, penetrando entre as frinchas das persianas das janelas góticas ou mouriscas que convidam a imaginar os prodígios pintados nos interiores que se escondem atrás das fachadas onde a pedra se fissura, o tijolo esboroa e os ferros enferrujam invadidos pela humidade.

Recordo Lord Byron, que viveu durante dois anos num daqueles palácios: “Talvez ainda mais querida nos seus dias de aflição/ Do que quando era ostentação, maravilha e espetáculo”.

Mais adiante, uma ponte arqueada sobre o espelho de água azul escuro, Rialto, aquela que mais vezes inspirou pintores que nos legaram quadros panorâmicos de extraordinário cromatismo naquela fronteira imaginária que liga a margem norte, San Rocco, à margem sul, San Marco. E depois, transposta a ponte de  l´Accademia, o recorte das cúpulas de San Giorgio e San Marcos ao fundo, lembrando um quadro de Canaletto. Do outro lado do canal, à direita, a igreja Santa Maria della Salute, imponente, e a alfândega, lembrando a proa de um navio sulcando um espelho líquido. Mais à frente, a Giudeaca e o seu canal; e logo, a ilha de Saint-Georges-Majeur.

O vaporetto atracando  no cais de San Marcos. Tal como o personagem de Morte em Veneza eu “via o cais tão espantoso, a magnífica composição desta arquitetura fantástica que a República de Veneza oferecia aos olhares respeitosos dos navegantes que se aproximavam: o esplendor ligeiro do Palácio, e da Ponte dos Suspiros, as colunas com o Leão e o Santo, sobre o cais o flanco do templo feérico que se anunciava em todo o seu esplendor, a perspetiva abrindo-se sobre o grande portal, com o seu relógio gigantesco”.

A cidade, fundada sobre o mar e aberta no passado aos comerciantes mediterrâneos, com a sua principal entrada aberta sobre a água, de onde se pode, depois, ir à deriva através da topografia firme e sinuosa das suas ruas e vielas estreitas. Caminhando sobre a água, rapidamente me encontrei na Piazza de São Marcos, a única que em Veneza se pode orgulhar de ostentar o título de piazza, pois as outras são apenas campi. A piazza, porta de entrada de Veneza, estava àquela hora da manhã totalmente inundada pela acqua alta e ainda despovoada de turistas.

O Palácio dos Doges erguido sobre arcos esbeltos apoiados sobre esplêndidos capitéis, imagem do poder e da força da Sereníssima, fundada sobre as águas. Entre as duas colunas altas e monumentais de granito, provenientes do Oriente próximo e tendo no seu topo os símbolos dos santos padroeiros de Veneza, a varanda da igreja onde na fachada sul se abria a Porta do Mar. Imagino toda a magnificência do comércio veneziano de outrora. São Teodoro, o antigo padroeiro, com o Leão de São Marcos, o novo padroeiro da rainha dos mares, dominam do alto das colunas. À direita, o Palácio Ducal. Uma quadriga de cavalos esculpida sobre o pórtico da Basílica. As fábricas da Livraria Marciana nas formas desenhadas por Jacopo Sansovino. E o imprescindível café Florian, onde se sentaram Casanova, Lord Byron e Marcel Proust e onde agora se sentam turistas ao som de um anacrónico quarteto composto por violino, contrabaixo, piano e acordeão. Era como se o tempo, momentaneamente, se tivesse comprimido, fazendo com o que eu havia visto décadas antes fosse exactamente o mesmo que eu via agora.

Nada muda nunca em Veneza, porque as paisagens venezianas, quase fotográficas, pintados por Canaletto no século XVIII, e por outros vedustisti da mesma época expostos na Galleria dell`Accademia ou na Ca´rezzonico ou no museu Correr são as mesmas que vemos hoje.

Veneza permanecerá assim, imutável, para sempre, a menos que, um dia, como  profetiza uma antiga crença popular, desapareça por completo, afundando-se nas águas da laguna.

Veneza emergiu do mar há 15 séculos e para que a sua história acabe em apocalipse estético, como imaginaram escritores e artistas, haverá de imergir, gorgolejando lentamente num derradeiro suspiro. Num quadro famoso, Tintoretto retratou a cidade finalmente engolida por uma vaga gigantesca. E  Dickens imaginou-a “enrolando-se sobre si mesma […] em inúmeras voltas como uma velha serpente: aguardando o momento em que as pessoas olharão para as suas profundidades em busca das pedras daquela antiga cidade que ela terá reclamado para sua amante”.

Subo à torre sineira, símbolo da cidade. Um vento ligeiramente salgado, o sirocco, soprando desde a laguna, vindo de madrugada “das profundezas do agreste Adriático”, como escreveu o poeta Umberto Sala. Avisto um manto de telhados, amarelos, castanhos, ocres, estendendo-se até se dissipar ao longe envolta na bruma. Igrejas, cúpulas, terraços, vielas, campi, canais, pontes. A bandeira tricolor ondeando ao vento, tal como a roupa de todas as cores estendida nos terraços.

A meio da manhã, não obstante a acqua alta inundar quase por completo o imenso pátio não deixando ver o xadrez do pavimento, grupos de turistas já formigam por ali num carreiro sobre os passadiços de madeira que circundam a Piazza. As ruas circundantes do sestieri de San Marco até Rialto, com as suas boutiques de alta-costura e lojas de ricordi, vidraria de Murano, máscaras carnavalescas, artesanato, chapéus e camisolas de gondoleiro, fancarias, permanecem entretanto com aqua alta até acima dos tornozelos. Porque muitas lojas ainda estão ainda fechadas e o carreiro de turistas não formiga por ali, sigo as setas amarelas que indicam o itinerário até Rialto para tirar a inevitável foto na ponte com o canal como cenário. Numa bifurcação, opto por contrariar a indicação da seta amarela, atalho por uma minúscula passagem para me perder num labirinto insondável de vielas estreitíssimas onde quase não é possível duas pessoas se cruzarem, deixando-me enganar por umbrais que não conduzem a nenhum lado, becos sem saída e outros que só dão saída para as águas.

“Seja qual for o destino com que aqui saímos de casa, estamos condenados a perder-nos nestas vielas enoveladas que nos convidam a decifrá-las, a segui-las até ao fim impalpável, pois geralmente terminam na água…”, tinha-me avisado Joseph Brodsky.

“Perder-se é o único sítio onde vale a pena ir.”, desafiara-me Tiziano Scarpa. Uma Veneza secreta, um universo paralelo ao dos itinerários luminosos turísticos cujas setas apontam na direcção contrária à que sigo.

Paredes arruinadas deixando ver a cicatrizes do tempo, fissuradas, pontes minúsculas sobre canais estreitíssimos, sombras. Tijolo e água. E gente que ali vive entrincheirada atrás das suas portadas de cor verde-melancia e que raramente se vê na praça de são marcos, nem nas trattorie e restaurantes dos itinerários turísticos. Os venezianos. Que no tempo da república já foram 300 mil e hoje, flagelados pelas hordas de turistas, privados dos seus hábitos e tradições, obrigados a emigrar para mestre, já apenas são 70 mil.

Depois de deambular através do dédalo de vielas em que se espraia a topografia desta Veneza secreta e que invariavelmente me conduziram a um campo com uma igreja ao fundo e no final quase sempre às águas, peço a um veneziano que me reconduza a uma das setas amarelas para me achar e voltar a San Marcos, e dali, depois, contornar Veneza pelo seu lado oriental e seguir para norte ao longo da Fondamenta Nuova.

Ao entardecer caminho ao longo da feirante Riva degli Schiavone até aos Giardini, no sestiere do Castello, ignorando os grupos de turistas que  chapinham na água e espreitam sem ver através das suas câmaras de vídeo os pallazzi e palazzeti. Demasiado bulício: vendedores de malas e óculos de contrafacção, camisolas das principais equipas de futebol de Itália, grupos de jovens junto do obelisco, japoneses, trattorie, bares. Mais adiante, filas de motoscafiembalados pela ondulação das águas da laguna, e produzindo ao roçar umas nas outras um concerto de guinchos metálicos.

Entro no legendário Harry´s Bar, ali bem perto, na escondida via Valleresso, onde tudo está animado e alegre ao contrário da vida estagnada lá fora. Forçado primeiro a mudar de nome e depois obrigado pelo regime fascista a fechar portas – porque acolhia judeus quando todos os outros bares os excluíam – depressa se tornou num ponto de encontro para qualquer divo que pusesse os pés em Veneza. Dependendo da década, era possível ali encontrar Winston Churchill, Ernest Hemingway, Maria Callas, Orson Welles ou Marcello Mastroianni, bem como vários membros da realeza. Saio.

Sigo pela Via Garibaldi, passando pelo Arsenale, onde outrora pulsava o coração marítimo da Serenissima. Viro à esquerda e adentro-me por vielas ladrilhadas entre paredes de estuco avermelhado, passagens estreitas. Atravesso campicom igrejas e sinos repicando. Cruzo minúsculas pontes arqueadas. De quando em vez, detenho-me com os cotovelos apoiados num parapeito para ver passar uma gôndola deslizando como uma enguia sobre as águas e perscrutar osestreitos fondamenta (passeios ribeirinhos, e silenciosos, que rodeiam os canais e os rios).

Perdi-me e achei-me vezes sem fim ora orientado pelo Google Maps ora pelas setas amarelas pintadas em paredes nos cruzamentos e bifurcações. Outras vezes, confundido pelas indicações gesticuladas dos moradores que, numa torrente de  palavras, a destra, a sinistra, dritto, dritto, me reencaminhavam no mapa fluído da cidade aquática.

Ao crepúsculo, deixo-me guiar por Brodsky ao lado das águas cor de sépia da laguna lambendo as pedras e derramando-se no rebordo do degrau mais alto, desgastado pelos pés e pelas ervas daninhas. Evito pisar minúsculos os caranguejos cinzentos que patrulham o chão empedrado. E prossigo caminhando nas Fondamenta Nuove “com a maior aguarela do mundo à minha esquerda e uma perspectiva infinita de tijolos vermelhos à minha direita”.

“Pinta”, segreda-me Brodsky.

Como num quadro de Canaletto, avisto Murano, ao longe, os relevos difusos sob a luz branda. Sobre o espelho de lâminas angulares da laguna cortadas por ondas em ágata e preto mate iluminadas com opala crua, vogam as ilhas de San Cristoforo e de San Michele, “a ilha dos mortos”, com os seus ciprestes anunciando o que guardam no outro lado dos seus altos muros de tijolo, a fachada da igreja renascentista elevando-se entre o arvoredo com a branquíssima pedra de Ístria. Lá dentro, os túmulos de Igor Stavinsky, Sergei Diaghilev, Erza Pound e Joseph Brodsky.

Veneza não se acaba nunca. E longa é a noite veneziana.

Porque Javier Marías me tinha dito que devia passear à noite pelas zattere, volto a olhar o Google Maps e fico a saber que num percurso quase em linha recta tracejado no ecrã do telemóvel, com a duração de meia hora, poderei ir desde a Fondamenta Nova até à Fondamenta delle Zattere, no extremo sul de Veneza, na margem do largo e profundo canal atravessado por grandes navios.
Cruzo-me com “personagens [vindos] da noite veneziana, iluminada por precários lampiões, com um certo brilho festivo no olhar, mas confusos e tristes a ponto de chorar. [Vindos] da loucura, e de nenhum outro lugar”, como as também as viu o jovem Walter Benjamin quando viajou por Itália (Ensaios sobre Literatura). Uma espécie de habitantes do limbo, criaturas irremediavelmente extraviadas vagabundeando, como eu, na noite veneziana.
Sem setas amarelas a indicar-me o trajecto, e com a intuição do passeante, atravesso a noite veneziana seguindo por calli e fondamenta menores precariamente iluminados, às vezes uma luzinha surgindo através de uma fresta de uma porta, o ruído dos meus passos abafado pelo marulhar da água nos canais, e menos de uma hora depois chego à Fondamenta delle Zattere.

Numa escuridão quase absoluta, caminho vagarosamente sobre um chão empedrado entre um muro e a laguna, atravessando ínfimas pontes, Umilitá, Ca´balà, que serpenteiam para o interior de Veneza, até que, atravessando as sombras, pareceu-me ver na figura de um velho alto, magro, cabelo e barba brancos, um doge vagueando lentamente à beira da água, como se viesse de uma Veneza do fim da noite, o poeta Erza Pound. Desfeita a epifania, a figura diluiu-se na noite deixando atrás de si um rasto de palavras: “E à noite cantavam nas gôndolas,/ e nas barcas com lanternas;/ as proas erguiam-se prata sobre prata,/ iluminando a escuridão”.

Fico de vígilia na amurada da Ponte agli Incurabili, a olhar no outro lado do canal, na ilha da Giudecca, a igreja de Santa Maria delle Salute e a igreja de San Giorgio iluminando a noite com as suas pedras branquíssimas de Ístria. E recordo os versos que Rainer Maria Rilke dedicou a Veneza:

“Porque o belo é apenas o grau do terrível que ainda podemos suportar. Todos os anjos são terríveis” (Elegias de Duíno)

[1]  Na pintura, o termo “veduta” (plural: “vedute”) designa uma vista panorâmica, com representações detalhadas de cidades. Canaletto foi o principal expoente deste género em Veneza.
[2] Javier Marías (2009). Veneza, Um Interior. Lisboa: Relógio D´Água; Pedrag Matvejevitch (2022). A Outra Veneza. Lisboa: Quetzal; Jan Morris (…). Veneza. Lisboa: Tinta da China; Joseph Brodsky (…). Marca de Água. Sobre Veneza. Lisboa: Relógio D´Água.
[3] Rainer Maria Rilke (2003). As Anotações de Malte Laurids Brigge. Lisboa: Relógio D´Água. 13 Eugenio Montale (2011). “A Enguia”. Poesia. Lisboa: Assírio & Alvim