VIAGEM DE BICICLETA PELO GRANDE SERTÃO

Makely Ka: texto e fotografias

ALGUNS ANOS ATRÁS PARTI numa viagem exploratória pela região do sertão mineiro, saindo da zona metropolitana de Belo Horizonte, a capital do Estado de Minas Gerais, rumo à Bahia, seguindo o fluxo do Rio São Francisco, com a intenção de realizar um trabalho de campo, conhecer a região e recolher material para um disco e uma exposição fotográfica. Decidi fazer a imersão no Noroeste de Minas após uma releitura de Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro João Guimarães Rosa. Minha hipótese era a seguinte: haveria uma geografia real dentro da geografia literária?
Tracei uma rota possível, passando por alguns dos principais pontos de relevância na trama do romance, como a Barra do Rio-de-Janeiro, onde o personagem-narrador Riobaldo encontra pela primeira vez o garoto Reinaldo; o córrego do Batistério, onde eles se reencontram adultos e Riobaldo entra para o bando de jagunços; o Liso do Suçuarão, deserto intransponível que o bando cruza para raptar uma mulher; o Paredão de Minas, às margens do rio do Sono, onde acontece a batalha final com o trágico desfecho.
O ponto inicial da viagem foi a cidade industrial de Sete Lagoas, ponto mais ao sul visitado por Riobaldo. O livro, publicado em 1956, se tornou um marco da literatura brasileira, num relato contínuo, sem parágrafos, narrado em primeira pessoa onde o ex-jagunço conta de forma não linear e usando uma linguagem extremamente inventiva, com muitos silogismos e expressões inusitadas no português do Brasil contemporâneo, a história de sua vida, seus amores, as batalhas épicas que participou, no período que vai aproximadamente do final da República Velha até o início dos anos 30 do século XX. O livro é uma espécie de romance de formação da identidade brasileira, cobrindo um período em que as relações de poder no interior do país foram marcadas pelo sistema conhecido como coronelismo e jagunçagem.
Durante o período de preparação da viagem, fiz uma leitura minuciosa do livro anotando os topônimos e traçando trajetos possíveis do personagem

 

 

dentro do mapa real do território. Busquei mapas no Arquivo Público Mineiro, consultei publicações que tratavam do tema, cruzei com trilhas de GPS, conversei com geógrafos e pesquisadores.
Por fim tracei um roteiro, que decidi realizar montado numa bicicleta, que equipei de acordo com as minhas necessidades. Minha proposta era realizar registros fotográficos, gravar paisagens sonoras, fazer anotações e escrever um diário de bordo.
Para tanto eu senti necessidade de instalar equipamentos que me garantissem uma certa autonomia energética durante a viagem, considerando que muitas regiões por onde eu iria passar eram áreas inóspitas, com baixa densidade populacional e às vezes nenhum acesso à rede elétrica. 
A decisão de fazer a viagem de bicicleta foi tomada com a intenção de estabelecer contato direto com a estrada, com as pessoas e os animais. Equipei a magrela com um cubo-dínamo para gerar energia elétrica com as pedaladas. Acoplada a um regulador de tensão e ligada a uma pequena bateria, utilizava a geringonça para carregar um farol, alimentar um gravador, uma máquina fotográfica, um aparelho celular e um laptop. Levava ainda uma barraca e um fogareiro. Com isso conseguia autonomia para andar por uma região com localidades muito remotas.
Percorrer de bicicleta as veredas do Grande Sertão se tornou também, de forma quase involuntária, um tipo de provocação, um protesto contra o discurso anacrônico do nacional-desenvolvimentismo que assola a região como também um contraponto à supremacia dos automóveis nas grandes cidades geradora da violência e do caos no trânsito.  A bicicleta evoca uma relação mais harmoniosa entre o homem e a máquina e aponta esse espaço de convívio possível, sugerindo inter-relações mais saudáveis e menos predatórias entre sistemas orgânicos e sintéticos, ou ainda entre a tecnologia e o estado de natureza.
Contrastar o sertão mítico com as lavras de minério, as estradas asfaltadas, as plantações de soja e eucalipto, as chaminés dos auto-fornos, eu percebi durante a viagem que era também uma forma de escancarar os descaminhos de uma civilização que ignora conhecimentos ancestrais, transmitidos oralmente através de gerações e segue firme em sua arrogância rumo à barbárie.
Foi, sobretudo,  uma forma de renovar a esperança por outras veredas para a civilização humana, buscando o melhor de culturas díspares, que se sobrepõe em camadas profundas de contradições e preconceitos.
No momento em que me despedi do meu filho e da minha mulher e me lancei na estrada senti que não tinha mais nada, tinha deixado para trás família, casa, carro, carreira, a partir dali era só eu e a estrada com aquilo que eu conseguia carregar na bicicleta. Essa sensação de abrir mão de tudo, esse desapego, esse desprendimento provoca um medo no início, uma insegurança. Depois de um tempo na solidão anônima da estrada, esse medo vai se transformando numa espécie de autosuficiência, de completude. Você vai se dando conta de que precisa de muito pouco. De água, alguma coisa para comer, um lugar pra dormir que pode ser uma barraca, uma rede armada entre os troncos de árvores, até um saco estirado no chão ao relento. 
A autosuficiência, no entanto, não é a autonomia arrogante de quem acha que não precisa de ninguém. Muito pelo contrário, é uma consciência que você vai adquirindo, pela própria fragilidade em que se encontra, pela situação de vulnerabilidade, percebendo que precisa contar com uma rede de apoio de desconhecidos, de uma certa solidariedade, desde a pessoa que te dá uma informação, até aquela que te recebe na casa dela, daquele que te dá um copo de água até o que te oferece comida.

Foram 47 dias e 1668 km pedalados. Saí de Sete Lagoas dia 17 de julho de 2012. Passei em tantos povoados, vilarejos, assentamentos e casas de moradores isolados no meio do sertão que perdi a conta. Cheguei no Paredão de Minas, o objetivo final da minha viagem, dia 31 de agosto, depois de, no último troço da minha viagem, ter pedalado quase cem quilômetros desde Brasilândia, passando pelo córrego do Cotovelo, pelo Porto dos Cavalos, onde atravessei o rio Paracatu e, finalmente, o lendário rio do Sono.

Barra do Rio de Janeiro

 da região chamam de chão de minério curiacanga e toá, muita areia fina e cascalho grosso, ipês floridos, buritis, jatobás, carcarás, maritacas, araras canindés, corujas buraqueiras, curicacas, siriemas e muito rastro de animal cruzando a estrada. Foi uma espécie de representação metonímica de todas as estradas que percorri durante a viagem. Nessa despedida eu me equilibrei em cima da bicicleta entre a angústia e a felicidade de cumprir o trajeto. Depois de atravessar a ponte sobre o São Francisco entre Buritizeiro e Pirapora, peguei um ônibus para Belo Horizonte.

 As cidades e vilas principais visitadas foram Araçaí, Cordisburgo, Curvelo, Morro da Garça, Capivara de Cima e Buritizinho (distritos de Corinto), Andrequicé, Três Marias, Barro Branco (distrito de Lassance), Várzea da Palma, Barra do Guaicuí, Pirapora, Ibiaí, Ponto Chique, São Romão, São Francisco, Travessão (distrito de São Francisco), Januária, Brejo do Amparo, Bonito de Minas, Cajueiro (distrito de Cocos na Bahia), Chapada Gaúcha, Serra das Araras, Urucuia, Bonfinópolis, Brasilândia e Paredão. Passei também em outros tantos povoados, vilarejos, assentamentos e casas de moradores isolados no meio do sertão. Cruzei o São Francisco algumas vezes, atravessei o rio das Velhas, o Jequitaí, o Urucuia, o Carinhanha, o Paracatu, o Cochá, o De-Janeiro, o do Sono e estive na cabeceira do Acari, do Pardo, do Pandeiros e do Rio dos Bois, além de passar por mais algumas dezenas de veredas, várzeas, córregos e ribeirões. Estive ainda naqueles lugares que povoam a  mitologia literária como o Córrego do Batistério, a Barra do Rio-de-Janeiro, o Vão dos Buracos, o Chapadão do Urucuia e finalmente o Paredão de Minas.

Na estrada, fui anotando e coletando aleatoriamente informações sobre a flora, a fauna, as bacias hidrográficas, o relevo e os afloramentos rochosos, os costumes dos moradores, as características de cada cidade e povoado, a história e as manifestações culturais, as festas religiosas e profanas, entre outros detalhes. Tudo isso, tendo como único critério a curiosidade.

 Um fato curioso durante o percurso foi perceber a impossibilidade de seguir pelo trajeto planejado. A cartografia do sertão é labiríntica e mistura o real com o imaginário, as informações sempre levavam a outros caminhos e eu sempre me perdia neles, apesar dos mapas, do GPS e das indicações. Acho que isso reflete a forma daquelas pessoas lidarem com o espaço, que não passa pela racionalização positivista das cidades planejadas, das vias pavimentadas, dessa civilização ordenada em coordenadas cartesianas. Às vezes, um sinal quase imperceptível é determinante: um tronco marcado, uma pedra, um pequeno curso de água, que pode estar seco inclusive.

 Caminhos que se bifurcam em galhos, nomes repetidos, referências trocadas, indicações confusas. Cada informante indica o mesmo caminho de uma maneira diferente. Uma légua nunca são seis quilômetros.

Cachoeira Grande do Rio do Sono

O livro de Guimarães Rosa é o próprio labirinto que emula os caminhos do sertão, confundindo o leitor pelo percurso das páginas. Enquanto narra seu percurso pelo território de forma errática, cheio de idas e vindas, de cruzamentos e encruzilhadas, de travessias e baldeações, o narrador também erra pela própria memória, indo e voltando no tempo, realizando saltos e elipses, embaralhando o fio da memória como um teseu perdido na própria linha do tempo. Teseu no labirinto do minotauro, que é a palavra, é a sede, o cansaço e a onça no sertão.   

 O crítico literário Willi Bolle disse que Grande Sertão: Veredas é de alguma forma a reescrita de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Eu resolvi inverter e percorrer o livro de Guimarães Rosa numa perspectiva euclidiana. A perspectiva de Euclides é de uma visada panorâmica, aérea, como se o autor estivesse analisando a paisagem do sertão num voo, ou ainda numa visualização de aplicativo de mapeamento com rastreamento por satélite, tal a precisão do seu mapa mental descrito no texto. Já Guimarães Rosa faz o inverso, ele se embrenha nas trilhas, se perde pelas veredas, como um rastreador que perscruta o chão, palmilha o solo, indo e vindo por caminhos de homens e de bichos, sempre por baixo, rente à terra, rastejante. É muito mais difícil visualizar o mapa do sertão rosiano, só depois de muita caminhada, de idas e vindas, de errâncias, de releituras insistentes, de pequenas marcações, quando começamos a identificar alguns sinais reincidentes, alguns padrões, para então começarmos a forjar o esboço de um mapa mínimo, ainda que um tanto difuso num primeiro momento, com áreas em branco, lugares improváveis, distâncias imprecisas.

 O mapa que eu montei partiu das minhas anotações num diário de bordo, dos pontos geolocalizados com a ajuda de um GPS durante a expedição e de sucessivas leituras erráticas do romance, facilitadas por uma edição em PDF onde era possível fazer buscas precisas por palavras-chave. Tudo isso sobreposto em camadas de mapas rodoviários, de unidades de relevo e biomas.

 Saí de Chapada Gaúcha e segui pela estrada de cascalho grosso no sentido de Serra das Araras. A placa na saída da cidade indicava 37 Km. Fui deixando as plantações e entrando de volta no cerrado, campo sujo, depois carrasco e cerrado fechado. Ganhei novamente a companhia  das corujas buraqueiras. Muitos ipês amarelos floridos e flor de cigano pelo caminho. Havia duas possibilidades de desvio: Ribeirão da Areia e Vão do Buraco. Contornando a serra onde nasce o rio Pardo, afluente do São Francisco, a primeira placa que avistei foi da Comunidade de Ribeirão da Areia, à direita. Decidi pegar os 7 quilômetros da estradinha de areia e procurar pelo Seu Sebastião, fabricante de violas e rabecas. Tinha indicação do pessoal do Instituto Rosa e Sertão e também do Museu Guimarães Rosa, onde vi uma de suas rabecas em exposição.

Dona Maria do Batuque, São Romão

 Ribeirão da Areia é um lugar bonito, aberto, iluminado. Se estende por uma planície com muitos buritis e pequenos rebanhos de gado espalhados pelos campos de braquiária. As casas simples seguem o curso do córrego de água cristalina que desagua na margem esquerda do Urucuia, muitos quilômetros abaixo. Encontrei Seu Sebastião vindo de uma farinhada e ele parecia cansado, mas foi o tempo todo solícito. Me levou até o quarto ao lado da casa que usa como depósito e “oficina”, me mostrou as fôrmas, as peças de madeira para a construção dos instrumentos. Me mostrou, por fim, duas rabecas que tinha prontas, ensacadas: uma de mulungu, também chamada de mata-cachorro e outra de imburana. Depois, entramos na casa e ele tocou algumas pequenas peças instrumentais, alternando uma e outra, explicando as diferenças de timbre e projeção em função da madeira e do tamanho das respectivas caixas de ressonância. Falou das folias, das festas onde costuma tocar. O papo estava bom mas eu precisava seguir viagem. Pedi então informação sobre o caminho e ganhei esse desenho:

 “Daqui para a Serra das Araras você cruza o rio de volta, passa à direita da igreja e atravessa o córrego Sucruiú. Depois tem uma cancela, vira a esquerda e sai num mata-burro. Passa um colchete, a escola, depois os assentamentos e margeia o Sucruiú até a cabeceira beirando as veredas. Mas não entra no ‘gaio’ à direita, pega sempre à esquerda da banda de cá dos buritis pra sair lá no Valdemar, no pé da serra que dá pro mirante do Vão do Buraco. Você vai fazer um ‘U’ para pegar de novo a estrada principal sem voltar pra trás”.

Nessas ocasiões a gente vai montando um mapa mental imaginário, um GPS cognitivo formado por sinapses de imagens, cheiros e sons.

 Fiquei intrigado com a referência a um ribeirão chamado Sucruiú. Em Grande Sertão: Veredas esse é o nome de um povoado assolado por uma peste de bexiga preta,  a varíola contagiosa, próximo do Pubo, onde os jagunços se encontram com os catrumanos.

 Quando voltei para a estrada principal, depois de margear a vereda do Sucruiú, cheguei em frente da casa do Valdemar, afastada uns duzentos metros da beira da estrada. Voltando trezentos metros cheguei no bar, já desativado, e atalhei de lá a trilha de dois quilômetros para um dos mirantes do Vão do Buraco. A visão panorâmica daquele vale recortado por grandes escarpas no final da tarde, com o Rio Pardo correndo no fundo entre as veredas é impressionante. Claro que tive vontade de descer, mas teria de deixar a bicicleta com a bagagem e seguir à pé. As casinhas espalhadas naquela cratera incrustrada entre as montanhas pareciam cenário de conto de literatura fantástica. Mas como já estava escurecendo, resolvi retornar para a estrada principal e seguir até Serra das Araras, meu objetivo final naquele dia. Foram  dez léguas pedaladas aquele dia.

 Saí de Serra das Araras depois de tentar encontrar, sem sucesso, o local onde o jagunço Antônio Dó teria sido enterrado. Ali era seu quartel-general, onde ele se refugiava e ditava as leis. Era conhecido e temido em todo o sertão dos Gerais. Hoje ninguém dá notícias, ninguém sabe quem foi, nunca ouviram falar.

 Pouco mais de uma légua depois da saída da cidade encontrei a entrada para Urucuia num “galho” em frente ao posto do IEF- Instituto Estadual de Florestas. A partir dali saí do cascalho e foi só areia. Entrando nos Chapadões do Urucuia não há nada numa distância de quase 80 km. Só cerrado, com muito carrasco e campos sujos. Sei que contornei a cabeceira do rio Acari, que nasce dentro da reserva, mas é um cerradão fechado sem possibilidade de acesso ao manancial. Esse foi o trecho, o mais ermo da viagem, mais até do que a entrada em território baiano, na travessia do Liso do Suçuarão. Percorri 110 Km de Bonito de Minas até Cajueiro, distrito de Cocos na Bahia, e cruzei o Córrego Catolé, passei pela Várzea da Ema, pelo rio Cochá e, finalmente, alcancei o Carinhanha, na divisa dos estados. 

 No Chapadão do Urucuia, percorri mais de 70 km sem avistar nenhuma casa, nenhum riacho, nem gado se vê até chegar ao povoado de Nova Santa Cruz. Se o Liso é o extremo, o Chapadão é o miolo do sertão e, como o pequi, tem espinho. Muita areia, cansaço, a água já no fim. Esse era o quadro faltando três quartos de hora para escurecer. Mas nem tudo saiu como eu previra e surgiu uma surpresa desagradável: a garupa resolveu quebrar e a bagagem com alforge, barraca e o equipamento foi todo ao chão. Estava no meio da areia, praticamente sem água, a muitas léguas da cidade mais próxima. Fiquei pensando se teria um lugar pior para aquela garupa quebrar. Minha bagagem, fora a bicicleta, pesa mais de 30 Kg, o que eliminava a possibilidade de transportá-la de outra forma que não fosse atrelada ao bagageiro. Se não conseguisse consertar teria de acampar ali e aguardar um carro passar no dia seguinte. Mas desde que larguei a estrada principal, logo após a saída de Serra das Araras e entrei no “galho” para Urucuia não cruzei com nenhum veículo.

 Corria, portanto, o risco de ter de montar a barraca à noite, mais cansado e com mais sede. Por isso, resolvi tentar consertar a garupa da forma como fosse possível e seguir viagem. Como se não bastasse, me passa o único veículo que cruzei em todo o caminho, uma moto com dois sujeitos, eu tentando consertar a garupa e um deles me diz: “arruma logo e sai daqui por causa das onças, o ief soltou várias nessa reserva”. 

 Eu vinha ouvindo histórias de onça desde Morro da Garça. Na Barra do Rio-de-Janeiro me falaram pela primeira vez dessas onças soltadas. Na Fazenda São Francisco confirmaram. Depois ouvi a mesma história noutras versões, variando o local, o tipo e o número de onças libertadas: suçuaranas, pintadas, pretas, pardas, maracajás, jaguatiricas. Pelos meus cálculos, a população de onças no sertão está equiparando com a de gado nelore. Certamente já ultrapassa a de humanos, pois a densidade demográfica da região é de 5 habitantes/ km2, a menor do estado.

 Consertei a garupa como pude e voltei a pedalar um tanto aliviado, mas ainda tenso com a possibilidade de quebrar novamente. Finalmente, consegui chegar em Nova Santa Cruz e foi a primeira vez durante toda a viagem que fiquei feliz ao ouvir música alta. Era a certeza de que estava próximo de algum lugar habitado. Tinha escurecido havia muitas horas no breu do Urucuia.

 Poucos quilômetros depois da Barra do Rio-de-Janeiro passei pelo lugar indicado pelos moradores onde costuma haver sinal de celular. Mas no ponto mais alto da região, onde há um tronco caído de gameleira, nem no tronco tampouco em cima de uma árvore consegui sinal. Mais alguns dias sem comunicação.Cheguei a Barro Branco, distrito de Lassance, no meio da tarde, depois de atravessar o pequeno córrego do Atoleiro, que deságua no São Francisco. O povoado não tem mais que vinte casas, com uma pequena igreja na parte mais elevada com vista para a grande cadeia de montanhas ao fundo. Vinha com a indicação de Dona Liquinha para procurar a Marli, sua cunhada, irmã do Nem. Percebi que uma rede de contatos que vai se formando na estrada, uma indicação vai estabelecendo as seguintes e assim sucessivamente. Se você ganha a confiança das pessoas numa localidade é bem provável que na próxima seja bem recebido. Dona Marli e seu marido mantêm uma pequena venda ao lado da casa, praticamente uma janela que serve de balcão no fundo da varanda usada como área de convívio do bar, com mesas e cadeiras dispostas ao longo desse corredor. Fui atendido por seu filho, Pablison, que me ofereceu um pouco de água. Dona Marli, uma jovem senhora morena, de traços fortes, me recebeu a princípio desconfiada. Pouco depois chega seu marido, o Seu Wilson. Vendo minha bicicleta ele se lembra da garota que passou por lá no ano anterior, quando ele teve de abrir o bar no meio da noite para atender os clientes que chegaram de forma inusitada vindos do Rancho do Nem. Seriam as últimas notícias que teria da Ana Luísa até Chapada Gaúcha.Falei das referências que trazia, mas Dona Marli continuava reticente.  Ainda assim me ofereceu café e trouxe biscoitos de forno. Fiquei observando o movimento, respondendo as dúvidas, buscando informações sobre o caminho que deveria seguir. A partir de Barro Branco abrem-se os Gerais, como me disseram. A serra que se avista a partir da Igrejinha de São Sebastião é a Santa Helena, que compõe a cadeia do Espinhaço. Preciso contorná-la para chegar a Várzea da Palma, meu próximo destino. Vou detalhando meu mapa mental com as informações coletadas. O caminho mais provável contorna a serra passando pela vila da Gerdau, no meio do eucaliptal. É também o mais longo. Há um atalho por entre as montanhas, mas ninguém dá certeza se é possível passar por ali de bicicleta. É trilha de animais, abandonada há muitos anos.No bar ouço muita conversa de pescadores, me dizem que pescavam no Atoleiro muita curimba, mandi-amarela, mandi-branca, mantrinchã, piau, traíra, surubim e dourado. Hoje surubim e dourado quase não se encontra mais.Seu João chega calado e puxa conversa. No fim me convida para passar na sua casa e tomar um café. Decido passar a noite ali e comunico a Dona Marli, pedindo permissão para montar a barraca ao lado da casa. Ela não só permite como oferece o banheiro da casa para tomar um banho quente. Quando volto das fotos que fui fazer na igreja passo na casa do Seu João, que me mostra os móveis de madeira que produz: cadeiras, mesas, estantes, poltronas. As fotos dos filhos ficam ao lado da televisão ligada. Ele diz que posso dormir num dos quartos se quiser, que ele está sozinho em casa. Nos pequenos povoados é muito comum encontrar uma população de idosos e aposentados. Os mais jovens e as crianças vão embora para estudar e trabalhar. Deixam só fotos e saudades. E voltam de vez em quando.

 Me despeço do Seu João e volto para a casa da Dona Marli, tomo um banho e passando pela cozinha encontro um prato de comida quente e cheirosa me aguardando. Quando começo a retirar o equipamento dos alforjes para montar a barraca Dona Marli intervém e diz, com o consentimento do marido, que não vai permitir que eu durma ali na varanda naquele frio. Já arrumou a cama no quarto do filho para eu passar a noite.

 Volto à casa do Seu João para agradecer o convite. É uma situação um tanto curiosa: há poucas horas estava procurando um local para armar a barraca e, naquele momento, tinha dois convites de moradores para passar a noite numa cama confortável. Teria de recusar um, não sem um certo constrangimento. Optei por ficar na Dona Marli não só porque foi o primeiro lugar onde parei e fui bem recebido, mas também para manter o fio dos contatos iniciados na Barra do de-Janeiro e, principalmente, continuar ouvindo as conversas dos frequentadores do bar, o local de convívio social daquele povoado esquecido no sertão.

 Fiquei ali na varanda ouvindo as conversas, até que o bar fechou e todos se recolheram. Fiquei ainda um tempo do lado de fora, contemplando aquela noite absurda com um céu que não conseguimos mais enxergar nas grandes cidades. Estava a centenas de quilômetros de casa, sendo recebido por estranhos como uma pessoa da família.

 Esse cuidado me marcou profundamente durante toda a viagem. Nessas situações em que você está cansado, faminto, vulnerável, receber esse acolhimento afetuoso dá uma outra dimensão para o sentido de solidariedade. Ao mesmo tempo em que você tem de se desfazer do orgulho, tem de pedir um favor, uma informação, um copo de água, um prato de comida, um lugar para pousar. Não são serviços que estão à venda, aquelas pessoas não vão te receber melhor ou pior em função da sua capacidade de pagar ou não por aquilo. É uma relação de confiança e respeito que se estabelece a partir de critérios sutis, que compreendem o jeito de falar, de agir, os pequenos gestos, a condição em que você e aquelas pessoas se encontram.

 No dia seguinte, tomei o café na varanda e fui arrumar o equipamento para partir. O Brício parou o caminhão ao lado do bar. Um tipo bonachão, curioso, prestativo. Começamos a conversar e ele me disse que conhecia uma pessoa que poderia me dar uma indicação mais precisa do caminho através da Serra Santa Helena. Sua casa estava na beira da estrada onde eu deveria passar. Com-

 Já eram quase 11 horas e Seu Clóvis me convida para almoçar na sua fazenda, do outro lado da estrada. Entramos na casa centenária e sua mulher, Dona Alexandra, estava na cozinha já com o almoço pronto. Seu Clóvis é homem culto, foi seminarista em Santos Dumont, conhece latim, grego, inglês, francês, estudou engenharia em Ouro Preto nos anos 60, quando abandonou para ficar cuidando dos pais na fazenda. Não se arrepende de não ter continuado os estudos.

 Depois do almoço com arroz, feijão e bife de boi, meu anfitrião me acompanha até o início da estrada, passando por trás de sua fazenda, onde eu deveria pegar a trilha para subir a serra. A referência eram as grandes torres da rede de alta tensão. Parti.

 Da fazenda do Atoleiro, eu conseguia avistar a trilha por entre a montanha que eu deveria subir. Mas mesmo com essa visão e seguindo todas as indicações, não encontrei a entrada. Fiquei três horas rodando dentro de um eucaliptal e depois no cerrado fechado procurando o início da trilha até que desisti e voltei para a estrada batida.

 Meu planejamento era chegar naquele dia à Fazenda São Francisco, lá pedir pouso e no dia seguinte alcançar Várzea da Palma. O resultado é que acabei rodando quase 30 quilômetros a mais. Nessa estrada trafeguei entre muitas carretas que recolhiam os troncos de eucalipto derrubados de uma grande área. Em determinada altura, encontrei o Marquinhos, funcionário da Gerdau que trabalhava solitário numa torre de observação a 30 metros do chão. Era final de tarde e ele já estava no solo, aguardando o veículo que iria buscá-lo. Me arranjou um pouco de água fria e completei uma das garrafas. Ele passava os dias ali, no alto da torre atento a possíveis focos de incêndio na plantação de eucalipto. Me informou que a fazenda que eu procurava estava uns 10 km adiante.

 Cheguei à fazenda  ao anoitecer, e quem me recebeu foi a Geralda, uma funcionária que cuidava da casa principal. Ela me informou que o gerente da fazenda, o César, havia saído para levar comida para alguns trabalhadores e logo estaria de volta. Fiquei ali nos degraus da varanda espaçosa daquela Casa Grande aguardando a volta do capataz. Ele chegou meia hora depois e me recebeu cordialmente, mas sem sorrisos. Era jovem, em torno de trinta e cinco anos e chegou junto do filho pequeno, o irmão e outros familiares. O garoto logo se interessou pela bicicleta e em alguns minutos o clima pesado se arrefeceu. Outro encarregado chegou ali, um senhor  mais velho, sócio do Silveira, o dono da fazenda que morava em Belo Horizonte. Por fim, me ofereceram uma marmita que havia sobrado e o César me indicou um galpão onde poderia passar a noite junto com os outros trabalhadores. Me explicou que pela forma como cheguei, com o farol aceso e o suposto motor da moto desligado, ele deduziu que fosse ladrão.

 Já instalado no galpão com os trabalhadores, comecei a entender o funcionamento de uma grande fazenda como aquela. Havia quatro camas e uma delas estava vaga. Muitas outras ficavam desmontadas, empilhadas junto com outros equipamentos no espaço que devia ter aproximadamente 50 metros quadrados. Todos vinham de outras regiões do estado e estavam ali provisoriamente. Foram contratados para derrubar o cerrado, para o solo ficar livre para virar pasto ou plantação de eucalipto.

 Tomei um banho frio e fui me deitar cedo, antes das 21 horas. Todos os outros já estavam dormindo. Fechei os olhos e dormi com a imagem da corrente arrastando animais e plantas no cerrado. Levantei às 5h com todos os meus companheiros de quarto. Tomei um café na mesma varanda do dia anterior na casa principal. Enchi as garrafas de água e Geralda ainda me arrumou um saco com pães que ela preparou para eu levar. Todos já haviam saído para a lida. Parti.

 Andei ainda muitos quilômetros dentro da Fazenda São Francisco. Chão de cascalho e areia entre pastagens. César, o gerente-capataz havia me dito que são 22 quilômetros só de margem com o rio São Francisco. Passei pelo rio Tapera e pelo córrego Jatobá  onde encontrei dois simpáticos senhores trabalhando na instalação de uma roda d’água: Seu Adão e Seu Silvano. Os dois, moradores das proximidades daquela Fazenda Jatobá, me tomaram meia hora de boa conversa. Os filhos moram na cidade e eles resistem ali. Adão me dá detalhes do caminho e depois vem em meu socorro para desfazer um mal-entendido. Eu havia parado alguns metros à frente do curral de madeira trançada da velha fazenda para fazer uma foto, da beira da estrada. Alguém de dentro da casa estranhou aquela figura ali, apontando uma máquina fotográfica em sua direção e gritou alguma coisa que eu não entendi. Só percebi o incômodo gerado quando Adão se aproximou tentando explicar o gênio difícil do irmão. Dali restavam ainda 45 quilômetros até a cidade. Saí das pastagens e entrei novamente no cerrado, chão de toá e areia. Passei pelos córregos Riachinho, Porteira, Porcos e Mosquito, esses dois últimos secos. Subi a serra e entrei numa imensa floresta escura de eucaliptos gigantes.

Houve um momento, numa encruzilhada desse caminho entre a Fazenda São Francisco e Várzea da Palma, que parei para comer, já era tarde – eu estava almoçando cedo nos últimos dias já que ali o hábito é cear às 10h30 – e meu almoço foi o pão que havia ganhado da Geralda na fazenda, algumas castanhas e um pouco de água, o resto que havia no cantil. Estava muito cansado de empurrar a bicicleta nos bancos de areia, a marcha leve não funcionava mais e as subidas foram ficando cada vez mais difíceis. Dentro dos eucaliptais há muitas entradas que levam a lugar algum e não tinha certeza se aquele era mesmo o caminho. O GPS indicava apenas que eu estava numa rota “não transitável”.

Como não havia placas nem marcas de pneu, só rastro de animais, a única referência era a indicação do seu Adão, que me disse para entrar à esquerda logo após a linha de alta tensão no alto da serra. Esse seu Adão me pareceu extremamente familiar, embora eu nunca o tivesse visto. Acho que ele me lembrou meu pai e me inspirou confiança. Ou talvez eu quisesse dar a ele esse voto de confiança porque não havia outra opção.

O único som era do vento nas folhas dos eucaliptos. Há momentos em que você fica totalmente vulnerável. Não é difícil errar o caminho, ficar sem água, a bicicleta quebrar, você se ferir. E é aí que descobre uma força que ignora. Pensei na minha família, nos meus filhos, nos amigos, nas pessoas que conheci esses dias, e chorei muito. Foi choro sem anúncio, como um temporal que desaba de repente. Mas não havia tristeza, era um choro de plenitude, como água molhando a terra seca.

Montei na bicicleta e rompi a serra até avistar ajuntamento de cidade: era Várzea da Palma, o odômetro marcava 100 quilômetros desde Barro Branco e o sol estava na casa do quarto decrescente. Foi uma epifania, esses raros momentos em que você tem certeza de que pode fazer qualquer coisa da sua vida.

 “Urubu é uma vila pobre, das mais antigas do sertão e edificada em sítio elevado, mas sem beleza.” Encontrei esse trecho no livro O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina, de Teodoro Sampaio, reeditado pela Companhia das Letras. Entre agosto de 1879 e janeiro de 1880, ele realizou uma viagem de três mil quilômetros desde a foz do São Francisco até à cidade de Pirapora, em Minas Gerais. Retornou com a comitiva até Carinhanha, de onde seguiu até São Félix, no Recôncavo, passando pela Chapada Diamantina. Teodoro foi engenheiro da Comissão Hidráulica, que tinha por finalidade a identificação e o levantamento dos portos e das vias de navegação no interior do país. A Vila do Urubu hoje tem o nome de Paratinga, uma cidade entre Lençóis e Barreiras, alto sertão baiano.

 Minha hipótese é que esse trecho foi usado como inspiração para Guimarães Rosa compor os versos da “Canção de Siruiz” que está no Grande

 Sertão: Veredas como um enigma.: «Urubu é vila alta, mais idosa do sertão: padroeira, minha vida – vim de lá, volto mais não… Vim de lá, volto mais não?…». Esta canção vai acompanhar o personagem Riobaldo por toda sua vida, como um deslumbramento, um código de conduta, um sortilégio. Não resta dúvida de que a frase inicial do capítulo 14 do livro do engenheiro nascido em Santo Amaro da Purificação, no recôncavo baiano, é muito semelhante aos versos iniciais do poema do escritor mineiro. 

 Teodoro, filho de um padre com uma escrava, é um desses personagens improváveis da nossa história. Além de inspirar Guimarães rosa, colaborou diretamente com Euclides da cunha na elaboração do livro os sertões, munindo o escritor com informações preciosas sobre o relevo e a topografia da região. Foi provavelmente o primeiro negro a se formar em engenharia no país e deixou uma obra considerável entre livros, estudos e cadernetas de viagem com informações topográficas, geológicas, geográficas, botânicas, etnográficas, sociológicas e ambientais sobre uma região que o Brasil desconhecia e ignorava. Depois de se estabelecer profissionalmente comprou a alforria de pelo menos dois irmãos escravos.

 Hoje Teodoro Sampaio é mais conhecido por dar nome a cidades e ruas em várias regiões do país. Como aquela das lojas de instrumentos musicais em São Paulo.

 Uma das controvérsias da geografia roseana é localização do Liso do Suçuarão. “Depois, de arte: que o Liso do Suçuarão não concedia passagem a gente viva, era o raso pior havente, era um escampo dos infernos. Se é, se? Ah, existe, meu! Eh… Que nem o Vão-do-Buraco? Ah, não, isto é coisa diversa – por diante da contravertência do Preto e do Pardo… Também onde se forma calor de morte – mas em outras condições… A gente ali rói rampa… Ah, o Tabuleiro? Senhor então conhece? Não, esse ocupa é desde a Vereda-da-Vaca-Preta até Córrego Catolé, cá embaixo, e de em desde a nascença do Peruaçu até o rio Cochá, que tira da Várzea da Ema. Depois dos cerradões das mangabeiras… Nada, nada vezes, e o demo: esse, Liso do Suçuarão, é o mais longe – pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si mesmo. Água, não tem. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta, sempre. Um é que dali não avança, espia só o começo, só. Ver o luar alumiando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se sabe sozinho, na cama daqueles desertos. Não tem excrementos. Não tem pássaros” (Grande Sertão: Veredas).

 Em uma pesquisa no Arquivo Público Mineiro, encontrei o recorte do Mapa do Município de Januária, publicado em 1939, (foto) que mostra uma estrada hoje quase abandonada, que sai de Januária, passa em Bonito de Minas, atravessa o córrego Catolé, a Várzea da Ema, o rio Cochá e segue até o Carinhanha, na divisa de Minas com a Bahia. É uma prova de que Guimarães Rosa consultou os mapas disponíveis na época para traçar o percurso dos seus personagens no livro. Não há indícios de que o escritor tenha estado por lá, até porque naquela época era uma região intransitável. Mesmo os jagunços tiveram dificuldade em penetrar no Liso do Suçuarão. Mas o mapa dá o percurso exato.

 Passei por esse mesmo caminho acompanhado do biólogo Máken Oliveira e do fotógrafo Marco Antônio Gonçalves Jr, que percorreram um bom trecho do percurso comigo durante quinze dias. É uma estrada vicinal de difícil acesso, são aproximadamente 100 km de muita areia no meio do carrasco, a vegetação na transição entre o cerrado e a caatinga. Acontece que no romance o autor suprime a existência de alguns rios, veredas e cursos de água, inclusive o Carinhanha, o quinto maior afluente do São Francisco, rio de águas escuras e fauna selvagem na margem esquerda do Velho Chico, transformando o Liso do Suçuarão num deserto ainda mais árido e instransponível. Tanto que a primeira empreitada do bando de jagunços na tentativa de atravessar o Liso, ainda sob o comando do chefe Medeiro Vaz, é frustrada pelas condições inóspitas do local. Somente na segunda tentativa, quando Riobaldo assume o bando, depois do suposto pacto e já encarnado como Urutu Branco, montado no cavalo a quem ele dá o sugestivo nome de Siruiz, eles rompem o liso para adentrar nos confins do sertão baiano até chegar na fazenda do Hermógenes, onde pretendem raptar sua mulher.

Várzea da Palma

O sertão está camuflado em Várzea da Palma. Ninguém dá notícias, ninguém sabe dele. Comem hambúrguer e pizza e ouvem música mecânica em volume muito além do razoável nos carros e nos bares. Mas ele surge na madrugada enquanto a cidade dorme, em sonho. E a cidade ganha contorno de outro tempo, outro sentido de existência.

Procuro informação sobre o córrego do batistério, que deveria estar ali próximo, afluente do rio das velhas, que corta a cidade. Mas os habitantes, como se estivessem encantados, não se lembram de nada, já não ouvem, já não vivem a própria vida, foram abduzidos. Só dão notícias do simulacro: as olimpíadas, os últimos capítulos da novela e camaros amarelos.

 Quase desistindo encontro um ex-caçador que dá notícia certa da existência, porém localização imprecisa, do dito córrego. Uns 40 km da cidade, pela estrada de terra até Barra do Guaicuí. O sol já no quarto descendente, me arrisco pela indicação do caminho. Era o início da minha errância e eu não sabia.

 Passei num bordel de beira de estrada, mulheres-dama me deram água e me convidaram para passar a noite. Não fiquei, segui viagem para não amolecer o espírito. Cumpri os 42 km até à ponte de madeira sobre o leito seco do Batistério. Era uma grota, já no fim da luz do dia. Dali ele deveria verter no rio das Velhas, poucos quilômetros antes do São Francisco. Ali começou a jornada de Riobaldo como jagunço, seu reencontro com o menino da Barra do Rio de Janeiro.

 Entrei no meu labirinto, a estrada sumiu na areia, só boi me seguia no breu. Os aparelhos marcavam rota não transitável e eu quase acreditando nas coordenadas do maligno. Devia já ter chegado em algum lugar e só me embrenhava mais. A fadiga, o cansaço, o farol do Cavalo Motor apagado quando cessava o movimento das rodas travadas nos bancos de areia, uma bifurcação sem indício, entrei errado e fui parar no pé de uma serra.

 Sertão é labirinto e o medo nosso minotauro. Deixei o facão na bainha do alforge – à mão, o canivete na cintura e rompi a escuridão quando avistei uma luzinha fraca. Da estrada dava uns 300 metros. Gritei por informação. A luz apagou. Insisti e a voz respondeu me confirmando o caminho errado. Tinha que voltar e seguir o outro sentido na bifurcação. Só ouvia a voz, distante. O diálogo foi esse, e assim eu retornei. Partindo ouço dois tiros atrás de mim. Era a voz se certificando que eu não ficaria por perto. O medo dele era diferente do meu. Medo de homem.

Caminho de Serra das Araras para Urucuia

Segui errando pelo caminho certo e topo outra bifurcação. Fiquei ali fazendo cálculos sem conseguir chegar a uma conclusão. Pressenti movimento no mato, mão no facão, forcei e vista e vi surgir um vulto de dentro da escuridão. Na frente, um cachorro. Deitei a bicicleta no chão e gritei: Arrenego cão dos infernos, valei-me nossa senhora da Abadia!

Mas ele veio vindo sem hesitar, quando estava a poucos metros esbarrou e eu distingui: era um senhor albino, miúdo, a expressão serena. Baixei minha arma. Ele não demonstrava medo e isso, não sei exatamente porque, me deixou aliviado. Sem eu perguntar ele me disse: – Meu filho, você está perdido nos caminhos, mas pode pegar essa banda de lá da estrada toda vida que daqui a três léguas encontra pouso pra descansar o corpo cansado.

Foi o tempo de ajustar as amarras do alforge na bicicleta, quando me virei para agradecer o homem já tinha sumido na escuridão. Não tive mais dúvida nem quis fazer ciência, segui a indicação com garantia de certeza. No assentamento de Rompe Dias veio a confirmação, o caminho era aquele mesmo! Exatamente 18 km depois estava na Barra do Guaicuí. Eram mais de 10 horas da noite e tinha rodado 78 km, contando as voltas no labirinto. Dormi um sono pesado e o senhor albino me apareceu no sonho novamente, dessa vez não disse nada. Amanheci minhas dúvidas naquela travessia. Como pode um cético invocar santo em hora de desespero?

Seu Valdivino em Pedras, município de Três Marias

 «Eu odeio as viagens e os viajantes. E no entanto estou eu aqui disposto a relatar as minhas expedições!.Assim começa Claude Lévi-Strauss o relato de sua célebre viagem ao interior do Brasil, entre 1935 e 1939.  Mais do que um simples diário de viagem, Tristes Trópicos é um ensaio que lançou as bases de uma nova etnografia, mais literária, menos técnica.

 Desenvolvi uma certa antipatia com a maioria dos relatos de viagem, principalmente esses que entopem as livrarias dos aeroportos. Tenho especial angústia com as peripécias de viajantes que deram a volta ao mundo com o mesmo par de sapatos, navegantes que cruzaram os sete mares num caiaque e ciclistas que foram até o polo-norte. Morro de tédio só de abrir uma página qualquer desses relatos e ler façanhas de distâncias cumpridas, de dificuldades superadas, de coragem e superação sobre-humanas. Me soam quase todos livros de auto-ajuda camuflados com o verniz da aventura. É como se o viajante vendesse a imagem de que todos conseguem alcançar seu objetivo se forem organizados, persistentes, dedicados e não desistirem nunca dos seus sonhos. É o modelo ideal de liderança empresarial, aquela experiência de superação e ousadia que poderia ser transposta para o mercado financeiro. Cheira a campanha publicitária para depois render palestras motivacionais para executivos e empresários. Muitos trazem detalhes exóticos e pitorescos que fazem a alegria das pessoas civilizadas, dos moradores das grandes cidades enclausurados em seus apartamentos claustrofóbicos que sonham com a liberdade de uma grande aventura.

Não vejo sentido algum em cumprir distâncias por cumprir, sem um propósito que justifique além do simples deslocamento.

Essa minha viagem teve início a partir de uma metáfora geográfica, a identidade do cerrado com a música mineira e a emulação da caatinga na música nordestina. A minha música vem dessas duas matrizes que se encontram e se misturam biológica e literariamente no grande sertão.

Seguir o percurso de Riobaldo Tatarana foi um desafio lúdico e consequência natural das minhas escolhas. A bicicleta foi uma necessidade prática que amarra o conceito todo e projeta a dimensão simbólica de uma espécie de jagunço contemporâneo, de independência, de um fora da lei. Essa contravenção começou de forma bem pragmática, pelo fato da bicicleta transitar teoricamente fora das leis de trânsito que regulamentam a circulação dos veículos. Com o tempo foi ganhando um caráter lúdico, a partir da abordagem das pessoas e da imagem que era projetada durante a viagem por esse cavalo-motor sertão adentro.

O romance roseano nesse sentido foi a escolha mais óbvia, mas também a mais difícil. Nele estão as questões políticas, sociais, psicológicas e metafísicas mais importantes pelas quais o país passou no último século. É a nossa Odisseia, desbravando a trilha aberta por Euclides da Cunha em Os Sertões, que o livro de Guimarães Rosa aprofunda esmiuçando a nossa identidade sertaneja, ao mesmo tempo em que amplia e subverte o cânone da interpretação clássica do Brasil, estabelecida a partir da década de 30 com Gilberto Freire, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque e outros intérpretes que identificaram e traduziram os índices de nossa formação.

 No Grande Sertão: Veredas, no entanto, não há interpretação, sua linguagem de invenção recria a voz do Brasil através de um jagunço letrado. Esse paradoxo dá bem a dimensão da nossa formação complexa, de mistura e cruzamento de referências, do caldo de cultura ibérica que ferveu sob o sol do sertão brasileiro.

 Confundindo o real com a ficção, Riobaldo Tatarana e Antônio Dó – o jagunço que viveu e fez fama na região de São Francisco – o Liso do Suçuarão e o grande Tabuleiro do alto-norte de Minas, a cartografia humana e geográfica se confunde e se perde nos nomes, nas trilhas labirínticas, nas histórias contadas, nos galhos das estradas, nos topônimos que mudaram de nome ou que foram inventados. A própria narrativa, repleta de idas e vindas, recortada de intertextos, como uma ilha de edição mental que forma sinapses a cada frase, dá uma ideia da dificuldade de estabelecer uma sequência linear temporal que oriente o percurso geográfico. Fiz a minha escolha priorizando alguns pontos de referência – poderia passar anos percorrendo os caminhos do sertão sem jamais cumprir todo o percurso do personagem. No trajeto que tracei tentei privilegiar alguns pontos que marcam passagens paradigmáticas do livro, mas o local das Veredas Mortas continuou incógnito. Foi o único ponto que não consegui localizar, por imprecisão intencional do livro. No local onde teria acontecido o pacto, a cartografia se perde, os nomes se confundem, os personagens ficam suspensos no vazio. O próprio Riobaldo não consegue retornar ao ponto onde teria feito o pacto, que tem tanto o caráter místico quanto representa uma espécie de contrato social projetando sua ascensão sobre os demais jagunços e que vai marcar o início da sua liderança.

 A ideia inicial do projeto foi sendo reelaborada, pelo menos do ponto de vista subjetivo, o trajeto foi alterado pontualmente, as metas foram ganhando outro sentido, foram se tornando detalhes menores diante da intensidade das experiências vividas.  Fui descobrindo aos poucos que o propósito foi muito além da viagem, se transformou em meta-viagem. Além disso conheci muita gente na estrada, com alguns não passei mais que algumas horas, e no entanto tenho a impressão que muitos deles continuam comigo. Fotografei, registei sons e movimentos, e muitos outros ficaram gravados apenas na memória. Depois de baldear tantas vezes o São Francisco a gente fica em estado de transbordamento.

 Ainda que não tenha nenhum outro desdobramento, só o fato de saber que pelo menos uma dúzia de pessoas começaram a ler o Grande Sertão: Veredas,motivados pela minha viagem, isso deixa-me totalmente realizado. Se servir ainda para instigar outros a conhecerem o cerrado, se interessarem pela cultura das populações que vive nessa região e pela preservação ambiental, a viagem terá cumprido o seu objetivo.